O que REALMENTE é o "esquerdismo"?
O correto significado de um termo que já perdeu completamente o sentido no embate público contemporâneo
Se você já acompanhou debates nos ambientes da esquerda, muito provavelmente já se deparou com a utilização de expressões como “esquerdista” ou “esquerdista infantil”. Atualmente, o termo “esquerdismo” transformou-se em uma espécie de curinga no vocabulário político, sendo empregado de forma indiscriminada para praticamente qualquer situação de discordância.
Em grande parte dos casos, a palavra é invocada como um rótulo para rebaixar e desqualificar críticas feitas por outras forças dentro do próprio campo progressista. Quando uma pessoa ou organização demonstra insatisfação com determinada política de governo ou com determinadas alianças, a sua crítica é rapidamente enquadrada e descartada sob a acusação de ser puro “esquerdismo”. Ao usar o termo dessa forma, tenta-se colar no crítico a imagem de imaturidade, sugerindo que ele estaria preso a uma visão idealizada e seria incapaz de compreender como o jogo político real verdadeiramente funciona.
É muito comum observar esse fenômeno partindo de militantes de partidos como o Partido dos Trabalhadores (PT) e de outras forças não revolucionárias, que utilizam o termo para descredibilizar correntes à sua esquerda, taxando-os pejorativamente de “revolucionários de apartamento” (não é mesmo, Boulos?) ou “webcomunistas”. Figuras políticas como Ciro Gomes também já recorreram a essa expressão, muitas vezes citando Vladimir Lênin de maneira equivocada para atacar oponentes. Para essas alas da política institucional, a acusação de “esquerdismo” acaba servindo como uma muleta retórica e um rótulo rápido para desqualificar outros setores da esquerda mais radical. Ela é empregada não como um debate tático, mas simplesmente como uma ferramenta narrativa para justificar recuos ideológicos, mudanças de programa e adaptações cada vez maiores à política institucional e a alianças com forças políticas à direita.
Além disso, esse uso banalizado também ocorre dentro da própria esquerda radical ou revolucionária. Nesse meio, é frequente ver uma organização acusando a outra de ser “ultraesquerdista” ou portadora de um “esquerdismo infantil”. O grande e preocupante problema em toda essa dinâmica é que o termo vai sendo repetido e repassado adiante sem que a maioria das pessoas que o utilizam tenha qualquer dimensão real do seu significado histórico e teórico. A acusação de esquerdismo torna-se vazia e consolida uma cultura política onde o rótulo é atirado ao vento apenas para invalidar o interlocutor, partindo de uma profunda incompreensão do que o conceito verdadeiramente representa.
Para compreender verdadeiramente o conceito de “esquerdismo” no significado formulado por Vladimir Lênin, é indispensável recuar no tempo e situá-lo no contexto da profunda crise que atingiu o movimento comunista internacional no início do século XX. O grande ponto de ruptura histórico para essa crise foi a eclosão da Primeira Guerra Mundial, no ano de 1914. Até aquele momento, a postura oficial de muitos partidos social-democratas na Europa era a de defender a solidariedade internacional da classe trabalhadora, prometendo uma oposição firme a qualquer conflito armado entre as nações capitalistas. No entanto, quando a guerra efetivamente começou, várias dessas lideranças políticas mudaram de rumo e fizeram exatamente o oposto: votaram a favor dos créditos de guerra e decidiram apoiar os esforços bélicos de seus próprios governos nacionais. Na visão de Lênin, essa atitude representou uma traição política imperdoável, pois, em vez de sustentarem uma posição internacionalista, esses líderes passaram a colaborar diretamente com os interesses das suas respectivas elites nacionais.
Esse processo de colaboração de classes durante a guerra abalou de forma irreversível a confiança depositada na Segunda Internacional, marcando a sua falência política e abrindo espaço para o surgimento de uma nova referência revolucionária: a Revolução Russa de 1917. Com o triunfo dos bolcheviques, a experiência ocorrida na Rússia consolidou-se como o grande exemplo a ser seguido por outros movimentos revolucionários ao redor do mundo. Foi impulsionada por esse novo cenário que, pouco tempo depois, em 1919, fundou-se a Terceira Internacional, também conhecida como Internacional Comunista.
O propósito central dessa nova organização era justamente reorganizar o movimento comunista em escala mundial, superando os escombros deixados pela Segunda Internacional. Contudo, esse cenário de reconstrução e fervor revolucionário não esteve isento de novos problemas. Profundamente indignados com a postura de traição adotada pelos antigos partidos social-democratas, muitos militantes europeus desenvolveram uma forte aversão não apenas ao oportunismo reformista, mas passaram a rejeitar categoricamente qualquer forma de atuação política que fosse mais complexa e institucional. Foi exatamente nesse terreno fértil de frustração e radicalidade que o fenômeno que Lênin chamaria de “esquerdismo” começou a criar suas raízes.
Diante do cenário de profunda frustração com as traições dos antigos partidos social-democratas que muitos militantes europeus passaram a rejeitar não apenas o reformismo, mas toda e qualquer forma de atuação política mais complexa. Para esses grupos, participar de eleições, atuar dentro dos parlamentos ou disputar espaço em sindicatos tradicionais passou a ser encarado sempre como uma forma de traição. A resposta que eles encontraram para combater o oportunismo foi a adoção de um radicalismo purista: a recusa categórica de qualquer compromisso, mediação ou manobra tática. Foi exatamente para alertar e debater com esses setores que Lênin escreveu a obra Esquerdismo, doença infantil do comunismo, em 1920. O seu objetivo não era simplesmente atacar militantes que estivessem “mais à esquerda” ou defender uma postura moderada, mas sim demonstrar que o movimento revolucionário jamais poderia se isolar das massas em nome de uma pureza abstrata.
Portanto, o que Lênin diagnosticou como “esquerdismo” não é o mero fato de alguém ter uma posição excessivamente radical ou desejar a transformação profunda da sociedade. O esquerdismo é, na verdade, um desvio tático e organizativo. Ele ocorre quando os grupos revolucionários passam a agir de forma sectária, recusando alianças, recuos e a disputa em espaços que eles consideram “impuros” ou reacionários, transformando posições que deveriam ser táticas em dogmas rígidos e absolutos. Para o líder bolchevique, o problema não residia na vontade de transformação radical desses militantes, mas sim na sua incapacidade de combinar esse objetivo revolucionário com uma estratégia política concreta para alcançá-lo. Era, no fundo, querer fazer uma política revolucionária sem realizar as mediações necessárias, sem paciência para a organização e sem uma leitura correta da realidade.
O uso da expressão “doença infantil” serve justamente para descrever essa imaturidade política: reflete a impaciência e a vontade de chegar rapidamente ao objetivo final sem ter que trilhar as etapas difíceis e complexas da luta real. O grande erro dos esquerdistas apontado por Lênin era tomar a sua própria consciência avançada de vanguarda como se ela já fosse a consciência de toda a massa de trabalhadores. Como eles já haviam chegado à conclusão de que o parlamento e os sindicatos reformistas deviam ser rejeitados, acreditavam que o povo também deveria rejeitá-los de imediato. Lênin argumentava que a política não funciona dessa forma e que a atuação revolucionária exigia disciplina e flexibilidade tática para atuar inclusive nesses espaços limitados, pois era lá que a grande parte da classe trabalhadora ainda se encontrava. Ao buscar uma pureza inatingível, o esquerdismo isola a vanguarda e reduz a política a pequenos círculos fechados que falam apenas entre si, o que, no fim das contas, enfraquece a capacidade real de organização e de disputa do movimento.
A principal inspiração para a crítica de Lênin foi o dramático caso alemão. Após o fim da Primeira Guerra Mundial, a Alemanha vivia uma situação de enorme tensão política que culminou na revolução de novembro de 1918, responsável por derrubar a monarquia e inaugurar um período de intensa disputa no interior do movimento socialista e operário. Essa divisão se aprofundou de forma trágica em janeiro de 1919, quando uma insurreição em Berlim foi brutalmente reprimida por grupos paramilitares de extrema-direita, os chamados corpos francos (freikorps), que atuavam com o apoio direto do governo social-democrata. Esse massacre resultou no assassinato de duas das principais lideranças comunistas do país, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
Esse episódio gerou um ressentimento profundo e uma desconfiança insuperável entre as bases comunistas e a social-democracia. Esse trauma histórico ajuda a explicar por que muitos militantes alemães passaram a rejeitar categoricamente qualquer forma de colaboração, compromisso tático ou atuação em vias institucionais. Para eles, a social-democracia não apenas havia traído a classe trabalhadora ao apoiar a guerra capitalista, mas também participara diretamente da repressão física contra os comunistas, fazendo com que qualquer aproximação com parlamentos ou sindicatos controlados por reformistas fosse encarada como uma nova capitulação.
Embora Lênin compreendesse a origem dessa indignação, ele apontava que ela estava conduzindo o movimento a um grave erro estratégico. Um grande exemplo dessa desorientação ocorreu em 1920, durante o putsch de Kapp, quando setores militares e de extrema direita tentaram dar um golpe para derrubar a República. Inicialmente, a direção do Partido Comunista Alemão adotou uma postura passiva, justificando que os trabalhadores não deveriam levantar um dedo para defender uma república burguesa. No entanto, a própria classe operária ignorou essa orientação e reagiu com uma greve geral massiva, derrotando o golpe e demonstrando, na prática, que muitas vezes é necessário fazer mediações e intervir na política para defender até mesmo instituições limitadas.
A recusa em aceitar essa flexibilidade levou a uma ruptura formal. Em abril de 1920, a ala mais radical rompeu definitivamente com o Partido Comunista Alemão e fundou o Partido Comunista Operário da Alemanha (KAPD). Essa nova organização tomou a recusa à institucionalidade como um princípio absoluto: defendia prioritariamente a ação direta e repudiava qualquer participação em eleições, nos parlamentos e nos sindicatos tradicionais, por considerá-los espaços corrompidos e oportunistas.
Foi precisamente contra essa postura purista que Lênin dirigiu o núcleo de sua crítica ao esquerdismo. O líder bolchevique não negava que os parlamentos e os sindicatos pudessem ser dominados por forças reacionárias, mas alertava que, enquanto grande parte dos trabalhadores ainda frequentasse e acreditasse nesses espaços, abandoná-los significava deixar as massas completamente sob a influência política dos reformistas. Ao se isolar em nome da pureza ideológica, a vanguarda passava a falar apenas para si mesma. O contexto alemão serviu para provar que a revolução exige mais do que indignação, coragem e disposição; sem capacidade de organização, flexibilidade tática e disposição para disputar politicamente as massas nos locais onde elas realmente se encontram, o excesso de radicalidade se transforma apenas em impotência política e isolamento.
Ao contrário da forma como é usado hoje, o termo “esquerdismo”, em seu sentido original, diz respeito a uma disputa dentro de uma perspectiva revolucionária e que pressupõe a superação do capitalismo. Ou seja, invocar Lênin para justificar alianças com o PMDB, o DEM ou qualquer outra força política fisiológica ou de direita, não faz nenhum sentido e indica que a pessoa que se utiliza dessa expressão, acaba utilizando-a de maneira equivocada. Lênin queria dar um “choque de realismo” no movimento comunista internacional ao mostrar que a política é feita com base na realidade existente e não com base em princípios políticos inflexíveis e que não permitem mudanças táticas. E isso significava fazer alianças quando necessário, até mesmo com setores que antes eram tidos como “traidores”, mas, com um objetivo revolucionário em foco.


